Instituto TIM

Generalizar

TIM Faz Ciência explora 7 operações intelectuais necessárias à construção do conhecimento.
Aqui vamos falar sobre a operação Generalizar.

 

Numa tarde de um dia específico você atravessa uma determinada rua e um cachorro – também ele específico e único – lhe persegue e ameaça. É possível que você passe a evitar essa rua e esse cachorro. Mas também é possível que você passe a ter medo de cachorros. Não só daquele cão específico, mas de cachorros em geral. Isso significa que você generalizou uma experiência particular. Generalizar implica, pois, estender para o desconhecido (todos os outros cachorros ou um grande número deles) a validade de uma experiência vivida ou de um conhecimento obtido em uma situação particular.

Nossas experiências são sempre eventos singulares: naquela tarde de terça-feira precisamente às 13h30 você atravessava a Rua Santa Rosa na altura do número 108 quando Rex, o cachorro de Dona Ruth, lhe ameaçou. São também contingentes: você poderia ter ido por outra rua; o cão poderia estar preso. Mas é a partir dessas experiências – únicas ou recorrentes, mas sempre singulares e contingentes – que fazemos generalizações. Assim, a partir de experiências sempre específicas – os diversos picolés que você experimentou, cada um em um dia e hora determinado – que você chega a uma generalização: “Gosto de picolés de limão, mas não de morango”. Uma generalização que você aplicará a situações novas e desconhecidas, quando, por exemplo, recusar um picolé de morango numa nova sorveteria (embora você nunca tivesse experimentado aquele picolé específico…). Alguém poderá argumentar – e com razão – que aquele picolé é diferente dos demais. Mas, se não generalizássemos nossas experiências, teríamos de viver cada dia como se tudo começasse do zero, sem saber do que gostamos ou do que temos medo.

É evidente que, por vezes, as generalizações podem ser infundadas. É possível que, em sua imensa maioria, os cães sejam dóceis ou inofensivos. Mas não fosse a capacidade de generalizar não poderíamos produzir e acumular conhecimentos e experiências. Nossa capacidade de generalização opera de vários modos, todos eles importantes para conhecer e organizar o mundo a nosso redor. Uma primeira forma de generalização consiste em reunir sob um único conceito vários objetos singulares nos quais reconhecemos uma ou diversas características comuns. Reunimos diferentes espécies – cação, tilápia, dourado – sob um termo único: peixes. Da mesma forma, cada um dos conjuntos de cadeias de montanhas – todos eles específicos, com um número diferente de montanhas, cada uma delas diferente das outras em sua forma e tamanho – pode ser generalizadamente agrupado como uma “serra”. A generalização oferece, nesse sentido, uma categoria abrangente dentro da qual identificamos um fenômeno particular: a Serra da Mantiqueira, por exemplo.

Mas a generalização pode ser também uma operação por meio da qual se estende a muitos – ou a todos – o que foi observado em um número limitado de casos ou indivíduos. Assim, por exemplo, a partir de um teste com um número limitado de pacientes se generaliza a eficácia de um remédio. Isso implica que, a partir daquilo que já é conhecido, expandimos o conhecimento para o desconhecido, supondo que o mesmo deve acontecer. É essa operação de indução que permite afirmar, como na primeira lei de Newton, que “todo corpo continua em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em uma linha reta, a menos que seja forçado a mudar aquele estado por forças aplicadas sobre ele”. É evidente que jamais poderemos observar o comportamento de todos os corpos, mas temos boas razões para concluir que eles devam se comportar da mesma maneira que aqueles já observados.

Assim, tantos as generalizações da ciência como as que fazemos em nossa vida cotidiana implicam a extensão da validade das experiências e observações anteriores para casos novos que consideramos iguais ou muito parecidos. A diferença fundamental entre elas é que, no campo da ciência, a expansão dessa validade é sempre submetida a provas sistemáticas a fim de testar, de forma impessoal e rigorosa, a validade e a extensão da generalização. Assim, antes de afirmar que um fármaco como dipirona é eficaz no controle da febre, testa-se seu efeito em diferentes situações e contextos. A generalização acaba ganhando precisão: ele pode ser considerado eficaz em determinadas situações, mas não em outras. Ainda assim, a generalização na ciência – assim como as que fazemos a partir de nossas experiências pessoais – sempre comporta uma margem de erro: pode haver um caso (um novo tipo de doença, por exemplo) para o qual a generalização não se aplica. Ainda assim, sem a capacidade de generalizar, não poderíamos produzir conhecimentos sobre o mundo nem acumular experiências pessoais que nos orientam em nossas ações e escolhas. Mais do que simplesmente útil, generalizar o particular é imprescindível. Nossas grandes questões são sempre relativas aos fundamentos (em que baseamos a generalização) e à extensão (até onde vai sua validade) da generalização e nunca à sua necessidade.

 

Professor José Sérgio Carvalho
Livre-docente em Filosofia de Educação na Universidade de São Paulo

5 Comentários

  1. adorei tudo daquele livrinho

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  2. É muito legal generalizar coisas

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  3. Muito bom adorei, Generalizar é oque mais gosto no Tim Faz Ciências

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  4. na minha escola tim faz ciencia chegou esse ano e adorei muito

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  5. muito bom o que estao fazendo por essas crianças . alem delas estarem aprendendo sobre a ciencia por isso e bom aprender

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