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Definir

TIM Faz Ciência explora 7 operações intelectuais necessárias à construção do conhecimento.
Aqui vamos falar sobre a operação Definir.

 

Qual a importância de se definir os termos e palavras que utilizamos em nossa linguagem cotidiana ou nos discursos científicos? Iniciemos a busca por essa resposta a partir de uma outra – e estranha! – pergunta: Qual a definição de “definição”? Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, uma definição oferece a significação precisa ou o verdadeiro sentido de uma palavra ou locução. Mas por que alguém se interessaria em buscar o sentido da palavra “definição” em um dicionário se já não soubesse, de antemão, que nele poderia encontrar a significação precisa dessa e de outras palavras? E se ele já sabia que um dicionário oferece definições, isso não implica que ele, de algum modo, já sabia o que é uma “definição”? A resposta é: em termos!

A verdade é que o aprendizado de uma língua se realiza muito mais por um processo de impregnação cultural do que por uma exposição sistemática a definições, tal como as que se encontram em dicionários, gramáticas e textos científicos. Em geral aprendemos a utilizar palavras e conceitos a partir de seu uso cotidiano; muito mais por imitação, tentativas e erros do que pela exposição a informações precisas acerca dos significados e usos de cada palavra isoladamente. Historicamente, os usos das palavras e dos conceitos precedem a sua definição. Estas só existem para registrar, aclarar e normatizar seu uso. Não é, pois, preciso saber definir o sentido preciso e exato de uma palavra para poder utilizá-la de forma correta e inteligente. Podemos dizer que alguém é nosso “amigo”, mesmo sem saber definir o que é a “amizade”. Por outro lado, é pouco provável que, se estivermos em dúvida se João é ou não um verdadeiro amigo, uma definição precisa e rigorosa de “amizade” venha a resolver nosso dilema.

No entanto, há ocasiões em que uma definição pode vir a nos informar o sentido de palavras ou conceitos que desconhecemos ou que utilizamos de forma incerta ou precária. Podemos, por exemplo, procurar definições precisas de “vírus”, “fungo” e “bactéria” por não saber distinguir entre esses diferentes tipos de agentes causadores de doenças e infecções. As definições, neste caso, ajudam-nos a ampliar nosso vocabulário e a ter maior precisão no uso de cada um desses termos. Se a precisão já é desejável em nossa linguagem cotidiana – pois pode evitar mal-entendidos –, ela é ainda mais necessária no campo das investigações científicas. Para um pesquisador, saber que o HIV não é uma bactéria, mas um vírus que pode levar ao desenvolvimento da AIDS é uma questão crucial, uma vez que dessa caracterização podem depender tanto a compreensão das características da doença como as possibilidades de controle e cura.

Há outras ocasiões em que podemos saber o sentido geral de um termo, mas ficar em dúvida quanto aos limites apropriados para seu uso. Nestes casos, mais do que nos informar seu uso habitual, uma definição nos ajuda a aclarar o caráter vago de uma palavra ou expressão. Podemos, por exemplo, saber o significado da palavra sequestro, mas não ter certeza se ela se aplica somente a casos em que se pede um resgate ou se pode ser aplicada quando a vítima é privada da liberdade apenas pelo tempo necessário para sacar dinheiro em um caixa eletrônico de um banco. Neste caso o enquadramento do crime como “sequestro” ou “roubo” depende de uma definição que elimine a vagueza que o termo comporta em seu uso cotidiano. Tal como no campo das práticas jurídicas, nas ciências a precisão em relação a definições e distinções conceituais pode ser decisiva.

Dela depende, muitas vezes, um teste que pode validar ou refutar uma teoria. O termo “violência”, por exemplo, pode ser utilizado de forma bastante vaga. Ele pode se referir a fenômenos tão distintos como uma agressão física, um ato criminoso, uma injúria verbal ou a simples imposição social de hábitos e valores, como no caso da expressão “violência simbólica”. Seria viável testar se uma política pública é eficaz no combate à “violência” sem que se torne precisa a acepção que se dá ao termo neste caso? Ela não poderia, por exemplo, ser eficaz no combate à violência física, mas impotente em face da prática de ofensas verbais?

Assim, nos usos cotidianos que fazemos da língua podemos recorrer a definições para ampliar nossos conhecimentos, para aclarar o caráter vago de uma palavra ou expressão ou mesmo para eliminar ambiguidades presentes em um enunciado. Mas há ainda casos em que uma definição científica tem um papel eminentemente teórico; isto é, ela só é válida e compreensível como elemento integrante de uma rede de conceitos que procura dar uma explicação adequada a um fenômeno. Assim, por exemplo, no século XVIII os físicos definiam o “calor” como um fluido sutil e imponderável, enquanto a partir do século XIX ele foi definido como uma forma de energia possuída por um corpo em virtude do movimento irregular de suas moléculas.

Não se trata, neste caso, de definições que procuram esclarecer o uso cotidiano que fazemos da palavra “calor” para expressar uma sensação térmica. Cada uma dessas definições é solidária de uma “teoria do calor”, de forma que rejeitar ou aceitar uma delas implica aceitar ou rejeitar as teorias científicas que lhes deram origem. E, se há casos em que uma comunidade científica aceita uma definição teórica e rejeita suas rivais, há outros nos quais diferentes definições expressam visões alternativas de um mesmo fenômeno.

Assim, por exemplo, dentro de um quadro teórico determinado, a definição de “liberdade” pode enfatizar a existência de um ordenamento jurídico que garanta as “liberdades individuais” ou, alternativamente, centrar-se no caráter indeterminado da história política dos homens. No primeiro caso ela é uma característica de cada um, no segundo uma propriedade da vida comum. Optar por uma ou outra definição implica comprometer-se com uma das diferentes visões teóricas acerca do significado de um termo.

As definições são, pois, recursos linguísticos dos quais lançamos mão para descrever um fenômeno, um evento ou um processo, de forma a diferenciá-lo de outros que podem parecer muito semelhantes ou idênticos. Mas também pode ser uma forma de compreender um aspecto da realidade, vinculando-o a uma rede de conceitos.

As definições podem também ter um importante papel prático em nossas vidas cotidianas. O uso vago de um termo pode dificultar a compreensão de um fenômeno e tornar ineficazes nossos esforços para lidar adequadamente com ele. Pense-se, por exemplo, no uso vago e indeterminado que nós, professores, fazemos do termo “indisciplina” no âmbito escolar. Ora ele se refere a pequenas “incivilidades” cotidianas, ora ele é usado para identificar a recusa de uma relação de autoridade, ora como dificuldade em se empenhar regularmente no trabalho escolar. Ter clareza sobre uma definição de indisciplina adequada ao contexto escolar pode ser um elemento importante para se centrar em ações que a enfrentem.

 

Professor José Sérgio Carvalho
Livre-docente em Filosofia de Educação na Universidade de São Paulo

12 Comentários

  1. legal ja estudei muito e gostei mais da parte de observar a pagina 8 foi bem legal de se fazer adorei o trabalho de vocês 😀

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  2. o livro Tim Ciência ensina muito já estou observando muito bem meu professor Kaélio ensina muito Bem e também ele e Muito legal

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    • Equipe TIM Faz Ciência

      Sandriele, conte pra gente o que você tem aprendido nas aulas de TIM Faz Ciência.
      Se você está comentando na página de Definir é porque você já fez essa operação, certo? Você e seus colegas já fizeram o dicionário de gírias?

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  3. eu gosto muito do Tim ciência isso ensina muito nós eu e minha dupla Sandriele e eu sou Robert

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    • Equipe TIM Faz Ciência

      Que bom que você pensa assim, Roberth!
      O que você aprendeu com TIM Faz Ciência?
      Conte pra gente.

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  4. Eu adoro vcs por que vcs ensinam muitas coisas, e minha porf ira colocar umas fotos nossas no seu “TIM FAZ CIÊNCIAS ´´

    Muito Obrigada por tudo que vcs fizera me ajudou muito no Definir !
    Boa Noite !

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    • Equipe TIM Faz Ciência

      Oi, Ana Vitória!
      Você conhece nossos canais? Dê uma olhadinha neles. Além do site, temos o Facebook (https://www.facebook.com/TIMFazCiencia/) e dois Flickrs (https://www.flickr.com/photos/121406068@N03/sets/ e https://www.flickr.com/photos/128197418@N02/sets/).
      Dê uma procurada lá! Quem sabe o post sobre a sua turma já foi publicado…

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  5. Boa Noite!

    Eu adorei seus livros ensina bastante e esses dias aprendi muitas coisas novas na escola… Obeigado

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    • Equipe TIM Faz Ciência

      Olá, Ana Vitória!
      O que você está aprendendo com TIM Faz Ciência? Conte para a gente!

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    • monte de coisa legal

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  6. gostei muito desse livro to estudando ele na escola…..
    os personagens dao medo kkkkk

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    • muito bom esse livro aprendi hoje

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